O tempo que entregamos sem perceber

Talvez a pergunta mais importante não seja quanto tempo temos, mas para onde estamos levando aquilo que temos.

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O tempo que entregamos sem perceber

Dizemos constantemente que não temos tempo.

Não temos tempo para ler, para conversar, para visitar alguém, para aprender alguma coisa nova ou simplesmente para permanecer alguns minutos em silêncio.

A frase tornou-se tão comum que já não costumamos questioná-la.

Mas talvez devêssemos.

Porque o tempo não desaparece simplesmente. Ele é utilizado.

Mesmo quando acreditamos não estar fazendo nada, estamos entregando aqueles minutos a alguma coisa.

Uma tela.

Uma conversa.

Uma preocupação.

Uma espera.

Um trabalho.

Uma distração.

Uma lembrança.

O problema talvez não esteja apenas na quantidade de tempo disponível, mas naquilo que fazemos com ele.

Existe uma diferença entre não ter tempo e não considerar algo suficientemente importante para receber o nosso tempo.

Essa diferença pode ser desconfortável.

Quando dizemos que não temos tempo para determinada pessoa, por exemplo, talvez estejamos dizendo, sem perceber, que outras coisas ocuparam um lugar maior em nossa lista de prioridades.

Nem sempre isso é errado.

A vida exige escolhas.

Não podemos estar presentes em todos os lugares, atender todas as pessoas e realizar todas as tarefas.

Mas escolher também significa reconhecer que cada escolha possui um custo.

Quando damos duas horas a alguma coisa, essas duas horas deixam de estar disponíveis para outra.

Parece óbvio.

Entretanto, vivemos como se o tempo fosse um recurso que pudesse ser recuperado posteriormente.

Dinheiro pode ser perdido e recuperado.

Um objeto pode ser quebrado e substituído.

Uma oportunidade pode, algumas vezes, aparecer novamente.

O tempo não.

Talvez por isso seja tão estranho observar quanto tempo dedicamos a coisas que, no fundo, não consideramos importantes.

Passamos minutos acompanhando discussões que esqueceremos amanhã.

Consumimos informações que não acrescentam nada à nossa vida.

Repetimos diariamente determinados hábitos sem sequer perguntar por que continuamos fazendo aquilo.

E depois reclamamos que o dia passou depressa.

Talvez o dia não tenha passado depressa.

Talvez tenhamos simplesmente permitido que outras coisas o consumissem.

Não estou dizendo que devemos transformar cada minuto em produtividade.

Seria apenas outra forma de escravidão.

Há valor no descanso.

Há valor na conversa sem objetivo.

Há valor em olhar pela janela, caminhar sem pressa, ouvir uma música ou simplesmente não fazer absolutamente nada.

O problema não é perder tempo.

É entregá-lo sem escolher.

Existe uma diferença enorme entre descansar porque decidimos descansar e passar horas distraídos porque não conseguimos interromper determinado hábito.

Em um caso, existe escolha.

No outro, existe automatismo.

Talvez uma boa pergunta para o final do dia não seja:

“O que eu consegui fazer hoje?”

Mas:

“Para onde foi o meu tempo?”

A pergunta muda tudo.

Ela não exige uma lista de tarefas cumpridas.

Exige consciência.

Talvez descubramos que algumas coisas merecem continuar recebendo nosso tempo.

Talvez outras precisem ser reduzidas.

E talvez algumas pessoas que considerávamos importantes estejam recebendo apenas aquilo que sobra depois de todas as outras coisas.

No fim, nossa vida também é construída dessa maneira.

Não apenas pelas grandes decisões que tomamos, mas pelas pequenas parcelas de tempo que distribuímos diariamente.

Cada hora entregue é uma pequena escolha.

E, somadas, essas escolhas acabam formando aquilo que chamamos de vida.

Marcos Alexandre Capellari

Considerando — Discursivo

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