O lugar onde o tempo ficou
Há lugares que continuam existindo muito depois de deixarmos de frequentá-los.
Não sei explicar exatamente por quê. Talvez porque um lugar não seja feito apenas de paredes, árvores, ruas ou objetos. Há alguma coisa invisível que permanece quando partimos. Uma espécie de presença que não se deixa fotografar, mas que reaparece, inesperadamente, quando menos esperamos.
Às vezes basta um cheiro.
Uma música.
Uma palavra.
E, de repente, estamos novamente diante de uma porta que já não existe.
Lembro-me de lugares assim.
Não consigo reconstruí-los inteiramente. Minha memória, com o passar dos anos, parece ter adquirido o hábito de apagar aquilo que antes parecia impossível esquecer.
Algumas imagens permanecem muito nítidas. Outras aparecem como fotografias antigas, desbotadas nas bordas.
Há pessoas de quem me lembro perfeitamente do rosto, mas não consigo mais ouvir a voz.
De outras, lembro a voz, mas o rosto se perdeu em algum lugar entre os anos.
Talvez seja essa a maneira encontrada pelo tempo para nos ensinar que lembrar também é esquecer.
Quando somos jovens, imaginamos que a memória funciona como um arquivo.
Pensamos que tudo aquilo que vivemos ficará guardado exatamente como aconteceu.
Mas não é assim.
A memória reorganiza as coisas.
Mistura épocas.
Acrescenta detalhes.
Retira outros.
Transforma pequenas situações em acontecimentos enormes e, às vezes, reduz acontecimentos importantes a uma única imagem.
Por isso desconfio das minhas próprias lembranças.
Não porque sejam falsas, mas porque são minhas.
E toda lembrança carregada de afeto parece possuir uma verdade diferente daquela que poderia ser encontrada em um documento.
Há uma casa da qual me lembro com frequência.
Não sei se ela era realmente grande ou se ficou grande porque eu era pequeno.
O corredor parecia comprido.
A janela parecia alta.
O quintal parecia não terminar nunca.
Hoje, se eu voltasse àquele lugar — caso ele ainda existisse — talvez me decepcionasse.
Talvez descobrisse que o corredor era estreito, que a janela era baixa e que o quintal caberia inteiro em poucas fotografias.
Mas prefiro não conferir.
Há lugares que precisam permanecer do tamanho que possuem dentro de nós.
Também existem pessoas que continuam nos acompanhando sem saber.
Um professor.
Um vizinho.
Um amigo.
Alguém que encontramos poucas vezes, mas que disse uma frase que ficou.
É curioso perceber que nem sempre são os grandes acontecimentos que permanecem.
Às vezes é um gesto.
Uma conversa rápida.
Uma despedida aparentemente comum.
Um olhar pela janela.
Uma tarde sem importância.
Naquele momento não sabíamos que estávamos vivendo uma coisa que, muitos anos depois, chamaríamos de lembrança.
Talvez a memória seja justamente isso:
uma tentativa imperfeita de conversar com aquilo que já passou.
Ela não nos devolve o passado.
Devolve apenas fragmentos.
E talvez seja melhor assim.
Porque, se pudéssemos recuperar tudo exatamente como aconteceu, talvez descobríssemos que aquilo que sentimos falta não é propriamente do passado.
É da pessoa que éramos quando o passado ainda era presente.
Hoje, quando alguma lembrança antiga retorna, procuro não expulsá-la.
Deixo que fique.
Mesmo que venha incompleta.
Mesmo que traga consigo detalhes que talvez nunca tenham acontecido exatamente daquela maneira.
A memória não precisa ser uma fotografia perfeita.
Pode ser uma janela.
E algumas janelas não existem para que possamos voltar.
Existem apenas para nos lembrar de onde viemos.
Talvez seja por isso que certas lembranças tremem.
Não porque sejam frágeis.
Mas porque carregam, dentro delas, tudo aquilo que o tempo não conseguiu apagar.
Marcos Alexandre Capellari
Memória Trêmula
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